Judith defendeu o uso polÃtico da imprensa a pouquÃssimo tempo, estão é muito suspeita esta defesa da autorregulamentação. É escandaloso que um órgão/setor/entidade explicitamente partidarizada deseje se autorregular.
Autorregulamentação no jornalismo
JUDITH BRITO ( Da Folha )
Democracias de verdade dispensam leis de imprensa. Valem para as empresas jornalÃsticas e os jornalistas as mesmas leis de danos morais que valem para a sociedade em geral. Disse muito bem um grande jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, num texto hoje já clássico, que “não existe uma ética especÃfica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão”. Lembrou Abramo: “O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir”.
Mesmo assim, diante da grande presença e da influência que têm os meios de comunicação nas democracias modernas, nelas os jornalistas, as empresas e as associações representativas do setor costumam definir princÃpios éticos que devem ser obedecidos no exercÃcio da atividade.
De uma forma geral, são princÃpios que seguem a fórmula simples e evidente do mestre Abramo. No Brasil, muitas empresas jornalÃsticas têm seus códigos de ética. A Associação Nacional de Jornais também tem seu código de ética e autorregulamentação. Com o fim da Lei de Imprensa que vigorava até o ano passado, tem crescido no paÃs o debate sobre a necessidade de autorregulamentação mais efetiva do exercÃcio do jornalismo.
Há quem fale em autorregulamentação como antÃdoto contra a criação de conselhos ou mecanismos chapa-branca de regulamentação, na linha de propostas tentadas nos últimos anos por grupos obscurantistas partidários do “controle social da mÃdia”.
É preciso deixar bem claro que qualquer iniciativa de interferência de instâncias governamentais no exercÃcio do jornalismo estará sempre fadada à inconstitucionalidade. Nossa Constituição é categórica no sentido de que a liberdade de expressão não pode sofrer nenhum tipo de restrição. Por isso, o Supremo Tribunal Federal acabou com a famigerada Lei de Imprensa.
De qualquer forma, contudo, é válido o debate sobre a autorregulamentação. Em outras democracias modernas, em diferentes graus e modelos, a autorregulamentação está institucionalizada. Criou-se nesses paÃses toda uma cultura de respeito a princÃpios éticos fundamentais para que o jornalismo siga cumprindo seu essencial papel na sociedade.
Mais do que a criação de uma instância de autorregulamentação, o que precisamos no Brasil é exatamente disseminar ainda mais a cultura de respeito aos princÃpios éticos do jornalismo. Os cidadãos devem estar atentos para os códigos de ética de cada jornal, de cada veÃculo de comunicação, e cobrar que sejam seguidos. Não podemos nunca esquecer que a credibilidade é o maior patrimônio do jornalismo.
Em relação ao Judiciário, o fundamental é que nunca se avance contra os princÃpios da Constituição e se pratique a censura. Todo o conceito de liberdade de expressão está baseado no fundamento de que qualquer punição nesse campo se dará sempre a posteriori. Afinal, acima de tudo, a sociedade tem direito à informação, sem restrições ou censura.
A democracia brasileira, da qual muito devemos nos orgulhar, é uma obra em progresso iniciada com a Constituição de 88. A liberdade de expressão consagrada nessa Constituição tem sido um elemento fundamental desse processo e assim deve permanecer. Cabe avançarmos na cultura da autorregulamentação para valorizarmos o exercÃcio do jornalismo com liberdade e responsabilidade.
In Folha, por Judith Brito, presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais)
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A imprensa como partido polÃtico
Por Washington Araújo em 20/4/2010, do Observatório da Imprensa
Esperei baixar a poeira. Em vão, porque a poeira existiu apenas na internet. E tudo porque me causou estranheza ler no diário carioca O Globo (18/3/2010) a seguinte declaração de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e executiva do grupo Folha de S.Paulo:
“A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação e, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste paÃs, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.”
E como a poeira não baixou resolvi colocar no papel as questões que foram se multiplicando, igual praga de gafanhotos, plantação de cogumelos, irrupção de brotoejas. Ei-las:
1. É função da Associação Nacional de Jornais, além de representar legalmente os jornais, fazer o papel de oposição polÃtica no Brasil?
2. É de sua expertise mensurar o grau de força ou de fraqueza dos partidos de oposição ao governo?
3. Expirou aquela visão antiquada que tÃnhamos do jornalismo como sendo o de buscar a verdade, a informação legÃtima, para depois reportar com a maior fidelidade possÃvel todos os assuntos que interessam à sociedade?
4. Como conciliar aquela função antiquada, própria dos que desejam fazer o bom jornalismo no Brasil, como tentei descrever na questão anterior, com a atuação polÃtico-partidária, servindo como porta-voz dos partidos de oposição?
…
Mesmo assim sinto ser oportuno aclarar que entendo como papel da mÃdia atividades como registrar, noticiar os fatos, documentar, fiscalizar os poderes, denunciar abusos e permitir à população uma compreensão mais ampla da realidade que nos abarca. Neste rol de funções não contemplo o de ser porta-voz de partido polÃtico, seja este qual for. Ora, o governo tem limites de ação: operacionais, constitucionais, polÃticos. A mÃdia, quando não investida de poderes supraconstitucionais, também tem seus limites que não são tão flexÃveis a ponto de atender as conveniências dos seus proprietários ou concessionários. É prudente e sábio reconhecer que em uma sociedade democrática todos os setores precisam de regulação – e a mÃdia não é diferente. E é bom que não seja. Afinal, a lei é soberana e a ela todos devem se submeter, já escrevia o pensador Shoghi Effendi (1897-1957) na segunda metade de 1950. Nada mais atual que isto.
Veja matéria completa aqui: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=586JDB003
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